Caminhão solitário numa estrada vicinal à noite em Goiás — variante 1

Estrada Vicinal

português

Estrada Vicinal

Um caminhoneiro no interior de Goiás pega um jovem carona numa estrada vicinal que ele evita há anos. A conversa acaba desenterrando uma decisão antiga que ele nunca conseguiu enterrar direito.

Adilson tinha cinquenta e quatro anos e evitava a BR-payment 342 fazia sete, desde que trocou de rota na transportadora só pra não precisar passar por aquele trecho de novo. Mas naquela noite a rota principal estava fechada por causa de um deslizamento, e o GPS mandou ele pela vicinal mesmo.

Ele apertou o volante com as duas mãos quando entrou na estrada de terra, sentindo o peito apertar de um jeito que não sentia há anos.

* * *

Foi naquele trecho, sete anos antes, que Adilson tinha desencorajado Nelson.

Nelson era o ajudante dele na época, vinte e três anos, com um talento de verdade pra violão que tocava em cada parada de posto, cada pausa de estrada. Numa noite, passando por aquele mesmo trecho, Nelson tinha contado que ia largar o caminhão pra tentar a vida de músico em Goiânia — tinha um primo com contato, uma chance de gravar umas músicas.

— Isso não é profissão séria, moleque — Adilson tinha dito, com aquela certeza de quem acha que está protegendo alguém de decepção. — Música é hobby. Você tem talento pra dirigir, tem futuro certo aqui. Não joga isso fora atrás de sonho.

Nelson tinha ficado quieto o resto da viagem. Duas semanas depois, pediu demissão mesmo assim, mas sem a confiança de antes, sem contar mais detalhe nenhum pra Adilson. Foi embora pra Goiânia sem violão, Adilson soube depois por um conhecido em comum, arranjou emprego de vendedor, nunca gravou nada.

Adilson nunca soube dizer se a culpa era mesmo dele. Mas nunca conseguiu esquecer o jeito que Nelson ficou quieto naquela noite, calado do jeito que fica quem acabou de perder confiança em alguma coisa importante.

* * *

A figura apareceu na beira da estrada por volta da meia-noite, um rapaz de mochila nas costas, polégar levantado, um estojo de violão pendurado no ombro.

Adilson parou sem pensar direito, mais por instinto de quem para pra carona em estrada deserta do que por qualquer outra coisa.

— Pra onde vai? — perguntou, quando o rapaz subiu.

— Goiânia. Vou tentar uma gravação lá. Meu primo conhece um cara.

Adilson sentiu o estômago revirar com a coincidência. — Você toca?

— Desde os doze. — O rapaz, que disse se chamar Caio, sorriu, meio sem jeito. — Meu pai acha que é perda de tempo. Falou que eu devia arrumar profissão séria antes de gastar tempo com isso.

As palavras bateram em Adilson feito eco. — E você concorda com ele?

— Não sei. Às vezes acho que ele tem razão. Às vezes acho que se eu não tentar agora, nunca mais vou ter coragem.

* * *

Rodaram em silêncio um tempo, só o barulho do motor e da estrada de terra, Adilson pensando em como responder, se é que devia responder alguma coisa.

— Posso te contar uma coisa? — falou, por fim.

— Pode.

— Eu conheci um rapaz, anos atrás, que tinha um sonho parecido com o seu. E eu disse pra ele exatamente o que seu pai tá dizendo pra você. Que não era profissão séria, que ele devia desistir.

Caio olhou pra ele, curioso. — E ele desistiu?

— Desistiu. — Adilson respirou fundo. — E eu nunca soube se foi minha culpa, mas nunca consegui parar de pensar que talvez ele tivesse conseguido, se alguém tivesse incentivado em vez de desanimar.

— Por que o senhor tá me contando isso?

Adilson pensou na resposta um tempo antes de dizer. — Porque acho que devo essa dívida a alguém que não consigo mais pagar. Então vou pagar com você, se você deixar.

* * *

Passaram o resto da viagem conversando de verdade, Adilson perguntando sobre as músicas de Caio, sobre o que ele queria gravar, sobre os planos concretos que ele tinha, não só o sonho vago que Adilson tinha imaginado no começo.

Quando chegaram no ponto onde Caio precisava descer, perto de um posto na entrada de Goiânia, Adilson parou o caminhão e olhou pra ele antes de deixar ir.

— Vai lá e tenta. De verdade. E se não der certo dessa vez, tenta nas próximas. Não deixa ninguém, nem seu pai, nem eu, nem ninguém, te convencer que sonho não vale tentativa.

Caio sorriu, um sorriso real dessa vez. — Obrigado, senhor. — Desceu, ajeitou o violão nas costas, e caminhou pro posto sem olhar pra trás.

* * *

Adilson ficou parado no acostamento um tempo, vendo a figura de Caio sumir na distância. Não sabia dizer se aquilo tinha sido coincidência ou alguma outra coisa que ele não tinha vocabulário pra nomear. Não precisava saber.

Pegou o celular e procurou, pela primeira vez em sete anos, o número antigo de Nelson, salvo ainda com o apelido que ele mesmo tinha posto: “Nelson Violão”.

Discou antes que a coragem esfriasse.

— Alô?

— Nelson. É o Adilson. Da transportadora, de anos atrás.

Um silêncio longo do outro lado. — Adilson. Nossa, faz tempo.

— Faz. — Adilson respirou fundo. — Liguei pra pedir desculpa. Pelo que eu disse, naquela noite, sobre você largar o caminhão pra tentar música. Eu tava errado. Você tinha talento de verdade, e eu deveria ter incentivado, não desanimado.

Nelson ficou quieto de novo, e quando falou, a voz tinha um jeito diferente, mais aberto do que Adilson lembrava. — Sabe, eu ainda toco. Não profissionalmente, mas toco toda semana com uns amigos, num bar pequeno aqui perto de casa. Nunca desisti de verdade, só desisti de tentar em grande escala.

Adilson sentiu alguma coisa afrouxar no peito que estava apertado fazia sete anos.

— Isso é bom de ouvir, Nelson. É muito bom de ouvir.

Continuaram conversando por mais alguns minutos, reconstruindo devagar uma ponte que Adilson achava que tinha desmoronado de vez. Não desmoronou. Só precisava de alguém disposto a atravessar de novo.


english

Backroad

Adilson was fifty-four and had avoided that particular backroad in the interior of Goiás for seven years, ever since he’d switched routes at the trucking company just so he wouldn’t have to drive it again. But that night the main highway was closed for a landslide, and the GPS sent him down the backroad anyway.

He gripped the wheel with both hands as he turned onto the dirt road, feeling his chest tighten in a way it hadn’t in years.

* * *

It was on that stretch, seven years before, that Adilson had discouraged Nelson.

Nelson had been his co-driver back then, twenty-three, with real talent on guitar that came out at every gas station stop, every rest break. One night, passing through that same stretch, Nelson had told him he was going to quit trucking to try a music career in Goiânia — he had a cousin with a contact, a chance to record some songs.

"That’s not a serious profession, kid," Adilson had said, with the certainty of someone who thinks he’s protecting another person from disappointment. "Music’s a hobby. You’ve got talent for driving, a sure future here. Don’t throw that away chasing a dream."

Nelson had gone quiet for the rest of the trip. Two weeks later, he quit anyway, but without the confidence from before, without sharing any more details with Adilson. He left for Goiânia without a guitar, Adilson learned later through a mutual acquaintance, got a sales job, never recorded anything.

Adilson never knew for sure if it had really been his fault. But he’d never been able to forget the way Nelson went quiet that night, quiet the way someone gets when they’ve just lost faith in something that mattered.

* * *

The figure appeared on the roadside around midnight, a young man with a backpack, thumb up, a guitar case slung over one shoulder.

Adilson stopped without quite thinking it through, more out of the instinct of someone who picks up hitchhikers on empty roads than anything else.

"Where you headed?" he asked, once the young man climbed in.

"Goiânia. Going to try to get some recording done. My cousin knows a guy."

Adilson felt his stomach turn at the coincidence. "You play?"

"Since I was twelve." The young man, who said his name was Caio, smiled, a little awkwardly. "My dad thinks it’s a waste of time. Says I should get a serious job before wasting time on this."

The words hit Adilson like an echo. "And do you agree with him?"

"I don’t know. Sometimes I think he’s right. Sometimes I think if I don’t try now, I’ll never have the nerve again."

* * *

They drove in silence a while, just the engine and the dirt road, Adilson thinking about how to respond, whether he should respond at all.

"Can I tell you something?" he said, finally.

"Sure."

"I knew a young man, years back, who had a dream a lot like yours. And I told him exactly what your dad’s telling you. That it wasn’t a serious profession, that he should give it up."

Caio looked at him, curious. "Did he give it up?"

"He did." Adilson took a deep breath. "And I never knew for sure if it was my fault, but I never stopped thinking maybe he’d have made it, if someone had encouraged him instead of talking him down."

"Why are you telling me this?"

Adilson thought about the answer a while before saying it. "Because I think I owe a debt to someone I can’t pay back anymore. So I’m going to pay it forward to you, if you’ll let me."

* * *

They spent the rest of the drive really talking, Adilson asking about Caio’s songs, what he wanted to record, the concrete plans he had, not just the vague dream Adilson had pictured at first.

When they reached the point where Caio needed to get off, near a gas station at the edge of Goiânia, Adilson stopped the truck and looked at him before letting him go.

"Go try. For real. And if it doesn’t work out this time, try again next time. Don’t let anyone, not your dad, not me, not anyone, convince you a dream isn’t worth the attempt."

Caio smiled, a real smile this time. "Thank you, sir." He got out, adjusted the guitar on his back, and walked toward the station without looking back.

* * *

Adilson sat parked on the shoulder a while, watching Caio’s figure disappear into the distance. He couldn’t say whether it had been coincidence or something else he didn’t have the words for. He didn’t need to know.

He picked up his phone and looked up, for the first time in seven years, Nelson’s old number, still saved under the nickname he’d given him himself: "Nelson Guitar."

He dialed before the nerve could cool.

"Hello?"

"Nelson. It’s Adilson. From the trucking company, years back."

A long silence on the other end. "Adilson. Wow, it’s been a while."

"It has." Adilson took a deep breath. "I called to apologize. For what I said, that night, about you quitting trucking to try music. I was wrong. You had real talent, and I should have encouraged you, not talked you down."

Nelson went quiet again, and when he spoke, his voice had a different quality, more open than Adilson remembered. "You know, I still play. Not professionally, but every week with some friends, at a small bar near my place. Never really gave it up, just gave up trying it at a big scale."

Adilson felt something loosen in a chest that had been tight for seven years.

"That’s good to hear, Nelson. That’s real good to hear."

They kept talking a few more minutes, slowly rebuilding a bridge Adilson had thought was gone for good. It wasn’t gone. It just needed someone willing to cross it again.

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