O Homem que Colecionava Domingos
Um contador no Recife começa a receber pelo correio pequenos objetos de domingos que ele não lembra de ter vivido. As datas, ele confere, são todas reais.
Aderbal tinha cinquenta e oito anos e um sistema pra tudo, inclusive pros domingos.
Acordava às sete, mesmo sem precisar. Tomava café sozinho, lia o jornal no tablet, adiantava alguma coisa de trabalho — sempre tinha alguma coisa de trabalho, mesmo sendo contador autônomo havia vinte anos e podendo, teoricamente, descansar num domingo qualquer. Almoçava o que sobrava de sábado. Às vezes assistia televisão sem prestar atenção no que passava. Dormia cedo.
Ele não teria conseguido descrever um domingo específico dos últimos dez anos nem sob ameaça. Eram todos a mesma coisa, empilhados uns em cima dos outros feito folha de talonario, e ele nunca achou isso estranho até o dia em que o primeiro envelope chegou.
* * *
Era pequeno, pardo, sem remetente, com o endereço dele escrito à mão numa letra que não reconheceu. Dentro, uma concha do mar, pequena, ainda com um pouco de areia grudada, e um bilhete de papel dobrado ao meio: “Domingo, 14 de junho de 2009.”
Aderbal não lembrava de nenhum 14 de junho de 2009. Conferiu a agenda antiga, que ele guardava por hábito de contador — nunca jogava papel fora — e viu que aquele domingo estava em branco. Nenhum compromisso anotado. O que não queria dizer nada; a maioria dos domingos dele estava em branco na agenda, porque a maioria dos domingos dele não tinha nada que precisasse ser anotado.
Achou estranho, guardou a concha numa gaveta e não pensou muito mais naquilo.
* * *
O segundo envelope chegou três semanas depois. Um canhoto de ingresso de cinema, já desbotado, do filme que Aderbal nem lembrava de ter assistido, com a data “Domingo, 22 de março de 1998” escrita na mesma letra desconhecida.
Ele tinha trinta anos em 1998. Devia ter ido ao cinema às vezes, claro, mas não lembrava daquele filme especificamente, nem daquele domingo, nem de nada relacionado.
O terceiro veio um mês depois: um guardanapo de papel com um desenho de criança, um sol e uma casa e dois bonequinhos de mãos dadas, e embaixo, com letra tremida de criança pequena, “PAPAI E EU”. A data no bilhete: “Domingo, 9 de agosto de 1992.”
Nesse Aderbal teve que sentar.
Em 1992 a filha dele, Luiza, tinha quatro anos. O casamento dele com a mãe dela já estava naquela fase ruim que ele preferia não lembrar, cheia de discussões sobre dinheiro e sobre ele nunca estar presente de verdade, mesmo quando estava fisicamente em casa. Ele tinha, sim, uma vaga lembrança de levar Luiza pra algum lugar num domingo daquele ano — um parque, talvez, ou a praia — mas era uma lembrança tão fina que parecia mais invenção do que memória de verdade.
* * *
Ligou pra Luiza, que hoje tinha trinta e oito anos e morava do outro lado da cidade, e via o pai a cada duas semanas, sempre num almoço de domingo marcado com antecedência, sempre educado, sempre um pouco morno.
— Pai? Tudo bem?
— Você lembra de algum domingo, quando era pequena, que a gente foi pra algum lugar? Praia, talvez?
Um silêncio do outro lado que durou mais do que Aderbal esperava.
— Lembro de uma vez em Porto de Galinhas. Eu tinha uns quatro anos. Você me deixou enterrar seus pés na areia e depois a gente comeu tapioca numa barraca. Foi um dos únicos dias que eu lembro de você inteiro lá, sabe? Tipo, presente de verdade. Normalmente você tava com a cabeça no trabalho mesmo quando o corpo tava do lado.
Aderbal fechou os olhos. — Eu não lembro desse dia.
— Sério? — A voz dela ficou mais baixa, mais cautelosa. — Pra mim foi um dos melhores da minha infância inteira.
* * *
Os envelopes continuaram chegando, um por mês, quase sempre nas primeiras semanas, sempre sem remetente, sempre com aquela letra que Aderbal já tinha desistido de tentar identificar. Um recibo de restaurante de 2003, um cordel comprado numa feira em 1985, um bilhete de trem de 1976 (quando ele tinha oito anos e ainda morava com os pais no interior de Pernambuco), uma pena de passarinho com uma data de 2015 escrita ao lado.
Cada um vinha de um domingo que ele não guardava. E, o que era pior, quanto mais ele tentava lembrar, mais claro ficava que aquilo não era esquecimento comum. Era como se aqueles domingos tivessem acontecido pra uma versão dele que nunca tinha realmente estado presente pra vivê-los. O corpo tinha ido, tinha feito as coisas, tinha até sorrido nas fotos que a mãe de Luiza mandou depois, quando ele pediu pra ver. Mas a mente dele já estava sempre em outro lugar — na planilha de segunda-feira, na declaração de imposto atrasada, no problema que ainda não tinha acontecido.
Ele tinha vivido cada um daqueles domingos duas vezes: uma vez de verdade, com o corpo, e nunca de fato, com o resto de si mesmo.
* * *
O último envelope — ele só soube depois que era o último — chegou numa segunda-feira de setembro, maior que os outros. Dentro, uma fotografia impressa, já meio amarelada: ele mesmo, mais jovem, de pé numa praia com Luiza pequena sentada nos ombros dele, os dois rindo pra câmera de alguém que ele não sabia quem tinha sido.
Não tinha bilhete de data dessa vez. Só um envelope pequeno extra, dentro do grande, vazio, com uma única frase escrita: “Esse ainda não aconteceu.”
Aderbal ficou olhando pro envelope vazio por um tempo longo, sentado à mesa da cozinha, o domingo daquela semana ainda pela frente, ainda inteiro, ainda em branco na agenda dele do jeito que todo domingo sempre esteve.
* * *
Ligou pra Luiza à tarde, coisa que nunca fazia fora do horário combinado do almoço quinzenal.
— Você tá livre no próximo domingo? De manhã cedo?
— Acho que sim. Por quê?
— Queria ir em Porto de Galinhas. Com você. — Ele hesitou, sem saber direito como terminar a frase, e terminou do jeito mais simples que conseguiu. — Queria estar lá de verdade dessa vez.
Luiza ficou quieta um instante. — De verdade como assim, pai?
— Sem o celular no bolso vibrando. Sem pensar em planilha nenhuma. Só lá, com você, até o dia acabar.
— Tá bom, pai. — A voz dela tinha um jeito diferente agora, mais aberta. — Eu vou.
* * *
Foram no domingo seguinte. Aderbal deixou o celular no carro, coisa que não fazia desde que celular existia. Comeram tapioca na mesma barraca — ou numa parecida, ele nunca teve certeza — e Luiza enterrou os pés dele na areia, brincando, do jeito que ele tinha feito com ela trinta e quatro anos antes, num domingo que finalmente, agora, ele conseguia dizer que lembrava por inteiro.
Nenhum envelope chegou depois daquele domingo. Aderbal esperou, meio sem querer admitir que esperava, mas as semanas passaram e a caixa de correio continuou vazia de qualquer coisa que não fosse conta e propaganda.
Ele entendeu, com o tempo, que não precisava mais. O que quer que estivesse devolvendo aqueles domingos já tinha conseguido o que queria: não era que ele lembrasse do passado. Era que ele finalmente estivesse presente no domingo que ainda restava pra viver.
Guardou a fotografia da praia numa moldura, na mesa de trabalho, virada pra ele, não pros clientes. E todo domingo, antes de sentar pra qualquer coisa que parecesse trabalho, olhava pra ela um minuto inteiro, só pra lembrar que aquele dia, feito todos os outros, só acontecia uma vez.
The Man Who Collected Sundays
Aderbal was fifty-eight years old and had a system for everything, Sundays included.
He woke at seven, even when he didn’t need to. Had coffee alone, read the news on his tablet, got a head start on some piece of work — there was always some piece of work, even though he’d been a freelance accountant for twenty years and could, in theory, rest on any given Sunday. Ate whatever was left from Saturday for lunch. Sometimes watched television without paying attention to what was on. Went to bed early.
He couldn’t have described a single specific Sunday from the last ten years, not even under threat. They were all the same thing, stacked one on top of the other like receipts in a ledger, and he’d never found that strange until the day the first envelope arrived.
* * *
It was small, brown, no return address, his own address written by hand in a script he didn’t recognize. Inside, a seashell, small, still with a bit of sand stuck to it, and a note folded in half: "Sunday, June 14th, 2009."
Aderbal had no memory of any June 14th, 2009. He checked his old planner, which he kept out of an accountant’s habit — he never threw paper away — and saw that Sunday marked blank. No appointment written in. Which meant nothing much; most of his Sundays were blank in the planner, because most of his Sundays had nothing that needed writing down.
He found it odd, put the seashell in a drawer, and didn’t think much more about it.
* * *
The second envelope arrived three weeks later. A faded movie ticket stub, for a film Aderbal didn’t even remember watching, with "Sunday, March 22nd, 1998" written in the same unfamiliar hand.
He was thirty in 1998. He must have gone to the movies sometimes, of course, but he didn’t remember that particular film, or that Sunday, or anything connected to it.
The third came a month after: a paper napkin with a child’s drawing on it, a sun and a house and two stick figures holding hands, and beneath it, in a small child’s shaky handwriting, "DADDY AND ME." The date on the note: "Sunday, August 9th, 1992."
That one made Aderbal sit down.
In 1992 his daughter, Luiza, was four. His marriage to her mother was already in that bad stretch he preferred not to remember, full of arguments about money and about him never really being present, even when he was physically home. He did have a faint memory of taking Luiza somewhere on a Sunday that year — a park, maybe, or the beach — but it was such a thin memory it felt more like invention than a real one.
* * *
He called Luiza, who was thirty-eight now and lived on the other side of the city, and saw her father every other week, always at a Sunday lunch scheduled in advance, always polite, always a little lukewarm.
"Dad? Everything okay?"
"Do you remember any Sunday, when you were little, that we went somewhere? The beach, maybe?"
A silence on the other end that lasted longer than Aderbal expected.
"I remember once in Porto de Galinhas. I was about four. You let me bury your feet in the sand and then we ate tapioca at a food stand. It was one of the only days I remember you fully there, you know? Like, actually present. Usually you were somewhere in your head even when your body was next to me."
Aderbal closed his eyes. "I don’t remember that day."
"Really?" Her voice got quieter, more careful. "For me it was one of the best of my whole childhood."
* * *
The envelopes kept coming, one a month, almost always in the first weeks, always without a return address, always in that hand Aderbal had by now given up trying to identify. A restaurant receipt from 2003, a chapbook bought at a fair in 1985, a train ticket from 1976 (when he was eight and still lived with his parents in the Pernambuco countryside), a bird feather with a 2015 date written beside it.
Each one came from a Sunday he didn’t hold onto. And, worse still, the more he tried to remember, the clearer it became that this wasn’t ordinary forgetting. It was as though those Sundays had happened to a version of him that had never actually been present to live them. The body had gone, had done the things, had even smiled in the photos Luiza’s mother sent him later, when he asked to see them. But his mind had already always been somewhere else — in Monday’s spreadsheet, in the overdue tax filing, in the problem that hadn’t happened yet.
He had lived each of those Sundays twice: once for real, with his body, and never, not truly, with the rest of himself.
* * *
The last envelope — he only found out later it was the last — arrived on a Monday in September, bigger than the others. Inside, a printed photograph, already yellowing: himself, younger, standing on a beach with little Luiza sitting on his shoulders, both of them laughing at someone’s camera he had no idea who had held.
No date note this time. Just a small extra envelope, tucked inside the big one, empty, with a single sentence written on it: "This one hasn’t happened yet."
Aderbal sat looking at the empty envelope for a long while, at the kitchen table, that week’s Sunday still ahead of him, still whole, still blank in his planner the way every Sunday always had been.
* * *
He called Luiza that afternoon, something he never did outside their scheduled biweekly lunch.
"Are you free next Sunday? Early morning?"
"I think so. Why?"
"I want to go to Porto de Galinhas. With you." He hesitated, not quite sure how to finish the sentence, and finished it the simplest way he could. "I want to actually be there this time."
Luiza went quiet a moment. "Actually be there how, Dad?"
"No phone buzzing in my pocket. No spreadsheet in my head. Just there, with you, until the day’s over."
"Okay, Dad." Her voice had a different quality now, more open. "I’ll come."
* * *
They went the following Sunday. Aderbal left his phone in the car, something he hadn’t done since phones existed. They ate tapioca at the same stand — or one just like it, he was never sure — and Luiza buried his feet in the sand, laughing, the way he’d done to her thirty-four years before, on a Sunday he could, finally, now, say he remembered whole.
No envelope arrived after that Sunday. Aderbal waited, half without wanting to admit he was waiting, but the weeks passed and the mailbox stayed empty of anything but bills and flyers.
He came to understand, in time, that he didn’t need any more. Whatever had been returning those Sundays to him had already gotten what it wanted: it was never about him remembering the past. It was about him finally being present for the Sunday he still had left to live.
He put the beach photograph in a frame on his desk, turned toward himself, not toward clients. And every Sunday, before sitting down to anything that looked like work, he looked at it for one full minute, just to remember that day, like every other, only happened once.
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