Ilustração do poema “A Honestidade de uma Tempestade”

A Honestidade de uma Tempestade

português

A Honestidade de uma Tempestade

eu surpreenderia você
com uma rima,
mas não posso cometer
este crime.

rimas são—
como posso dizer?—
um erro
que é necessário,
talvez,
para criar beleza
ou defender uma ideia?

bem,
não faço nenhum dos dois.

assim como o vento move o ar,
eu sopro palavras.
é a minha natureza.

rimas eu não conheço,
pois talvez sejam
chuvas que não posso controlar.

surpresa não oferecerei,
mas lhe dou a velha,
inesgotável honestidade
de uma tempestade
no deserto.

english

The Honesty of a Storm

i would surprise you
with a rhyme,
but i cannot commit
this crime.

rhymes are—
how should i put it?—
a mistake
that is needed,
perhaps,
to make beauty
or a point?

well,
i do neither.

as wind moves air,
i blow words.
it is my nature.

rhymes i do not know,
for perhaps they are
rains i cannot control.

surprise i will not offer,
but i give you the old,
unfillable honesty
of a storm
in the desert.

português

Leitura do poema

O poema brinca com a expectativa de que a poesia precise obedecer à rima. A voz promete uma surpresa, recua diante do “crime” e transforma essa recusa numa declaração de liberdade. Em vez de fabricar beleza ou uma conclusão perfeita, ela prefere deixar as palavras nascerem como o vento: por impulso, movimento e natureza.

A tempestade no deserto encerra o poema como imagem de uma honestidade impossível de conter. Ela não chega para decorar a paisagem, mas para revelar sua força. Assim também são as palavras deste poema: talvez não ofereçam o conforto de uma forma previsível, porém entregam algo mais íntimo — a verdade de quem escreve sem fingir controle sobre a chuva que carrega.

english

Reading the Poem

The poem plays with the expectation that poetry must obey rhyme. Its voice promises a surprise, steps back from the “crime,” and turns that refusal into a declaration of freedom. Instead of manufacturing beauty or a perfect conclusion, it allows words to arise like the wind: through impulse, movement, and nature.

The storm in the desert closes the poem as an image of honesty that cannot be contained. It does not arrive to decorate the landscape, but to reveal its force. The words behave in the same way: they may not offer the comfort of a predictable form, yet they give something more intimate—the truth of someone writing without pretending to control the rain within.

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