Canção do Exílio, de Gonçalves Dias — texto completo e análise

Quase todo brasileiro sabe os quatro primeiros versos deste poema sem nunca ter decidido aprendê-los. Ele está no hino nacional, está no livro didático, virou paródia na mão de meia dúzia de poetas grandes. De tanto ser repetido, virou paisagem — e a gente para de ler.

Eu voltei a ele há pouco tempo e travei numa nota de rodapé que o próprio Gonçalves Dias deixou. Deixo abaixo o texto completo em grafia atual, a versão original de 1846, e depois o que eu vejo nele.

Texto completo (grafia atual)

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que eu desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

O texto como saiu em 1846

Esta é a grafia da primeira edição de Primeiros Cantos (Rio de Janeiro, Typographia Universal de Laemmert, 1846). Vale ler em voz alta: é a mesma música, em outra ortografia.

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorgeião,
Não gorgeião como lá.

Nosso céo tem mais estrellas,
Nossas varzeas tem mais flores,
Nossos bosques tem mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em scismar — sósinho — á noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que taes não encontro eu cá;
Em scismar — sósinho — á noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permitta Deos que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que eu desfructe os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Coimbra — Julho 1843.

Notas de leitura

1. O poema da terra natal foi escrito longe dela — e o autor avisa

Embaixo do poema vem a data: “Coimbra — Julho 1843”. Gonçalves Dias era estudante em Portugal. Mas o detalhe que me pegou é a nota que ele mesmo pôs na edição: “Quando eu compuz esta canção, ou como melhor se chame, tinha apenas visto algumas das Provincias do Norte do Brazil.” O poema fundador da saudade brasileira foi escrito por um rapaz que confessa, por escrito, que mal conhecia o país de que estava com saudade. A terra do poema é uma terra imaginada — e funciona melhor por isso.

2. A epígrafe entrega que a saudade é importada

Antes do primeiro verso, Gonçalves Dias cita Goethe em alemão: “Kennst du das Land, wo die Citronen blühen” — conheces a terra onde florescem os limoeiros? É a canção de Mignon, do Wilhelm Meister, a menina que suspira por uma Itália que mal lembra. Ou seja: o molde é do romantismo alemão, e a palmeira entra no lugar do limoeiro. O poema mais brasileiro que existe começa se declarando herdeiro de uma forma europeia.

3. A máquina do poema é uma palavra só: lá

Repare como tudo se organiza em duas colunas. Aqui e cá de um lado, lá do outro, e o lá sempre ganha: as aves “não gorjeiam como lá”, “mais prazer encontro eu lá”, “sem que eu volte para lá”. O verso é curto (redondilha maior, sete sílabas), o refrão das palmeiras volta três vezes, e a rima em -á martela do começo ao fim. O poema não argumenta que a terra é melhor; ele repete até virar verdade. É construído como quem tem saudade pensa: em círculo.

4. Ele virou letra de hino, e isso mudou o poema

A segunda parte do Hino Nacional Brasileiro cita Gonçalves Dias literalmente, entre aspas na letra oficial: “Nossos bosques têm mais vida, / Nossa vida” no teu seio “mais amores”. Um desabafo particular de um estudante com saudade de casa foi promovido a liturgia de Estado. O que era falta virou ufanismo. Ler o poema inteiro devolve a ele o que o hino tirou: é um texto triste, escrito por quem está fora e com medo de morrer sem voltar.

5. A última estrofe é um pedido, não uma celebração

“Não permita Deus que eu morra, / Sem que eu volte para lá”. Depois de quatro estrofes comparando paisagem, o poema termina em súplica, com a morte dentro dela. Não é orgulho nacional: é medo. Gonçalves Dias voltou ao Brasil — e morreu, vinte e um anos depois, num naufrágio na costa do Maranhão, chegando de um navio vindo da Europa. O poema não previu nada, mas é difícil ler esses versos hoje sem esse peso.

Uma pergunta

Fica a pergunta que eu faria numa roda: qual é a sua palmeira? A coisa concreta — um som, uma árvore, um cheiro — que, pra você, quer dizer “minha terra”. Me conta nos comentários.


E mais uma, de Castro Alves: O Navio Negreiro — texto completo e análise.

Tenho outras leituras comentadas aqui: A Cartomante e Missa do Galo, as duas de Machado de Assis. E se quiser ler poemas com mais atenção, reuni um percurso gratuito: Como Ler um Poema — aberto, sem cadastro e sem prazo.

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